A cibercultura na educação
Pierre Lévy, ao publicar A máquina universo (1987), lapida o conceito de
cibercultura ao indagar questões pertinentes ao movimento sociotecnocultural em
que a sociedade está inserida. Segundo o filósofo, este é um tema polêmico e
multifacetado em que culturas nacionais fundem-se a uma cultura globalizada e
cibernética, envoltas no ciberespaço e orientadas por três princípios:
interconexão, comunidades virtuais e inteligência coletiva. Trata-se de um
“conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de
modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o
crescimento do ciberespaço” (Lévy, 2010, p. 17). As “técnicas” condicionam as
interações sociais, mas não representam a cultura do ciberespaço, que se
incorpora no espaço virtual-cognitivo das pessoas, na partilha de sentimentos,
informações e saberes. Afinal, “a virtualização é um dos principais vetores da
criação da realidade” (Lévy, 2009, p. 18). Desde o final da década
de 1990, a introdução das tecnologias de informação e comunicação (TICs) na
educação é aceita por sistemas de ensino em todo o mundo como uma epítome do
desenvolvimento educacional na história da humanidade. Nesse sentido, os
governos nacionais têm investido massivamente na compra de equipamentos,
softwares e formação docente contínua, à medida que surgem recursos
tecnológicos inovadores.
Em situação contrária, o país é
rotulado como uma nação pobre e infoexcluída pelo International Bureau of
Education, órgão da Organização das Nações Unidas para a Educação e a Ciência
(Unesco) especializado em educação com o objetivo de facilitar a oferta de
educação de qualidade em todo o mundo. Na verdade, criou-se um estigma
globalizado que correlaciona o aparato tecnológico da escola, da universidade
ou do centro de ensino à qualidade da educação, tornando-o sinônimo de mão de
obra qualificada, mas nenhuma evidência científica lastreia o argumento de que
as TICs são decisivas na aprendizagem de jovens e adultos, conforme Aviram
(2000).
Não seriam facilitadores? Aviram
propõe que o desenvolvimento mais significativo que acompanha a revolução das
TICs na educação ocorre fora da escola, refletido na impressionante quantidade
de alunos que não estudam em casa nem pertencem a nenhum sistema formal de
ensino (prática comum no Reino Unido). Citando o caso inglês, o autor conta que
os membros da classe média acreditam que as chances para o progresso
educacional de seus filhos são maiores em casa (com o auxílio de materiais
didáticos e grupos de apoio baseados na internet) do que na escola. O mesmo se
estende à universidade, dados os milhares de alunos matriculados em cursos de
nível superior on-line. A Open University, por exemplo, tem aproximadamente 250
mil estudantes no Reino Unido, na Irlanda e na Europa (www8.open.ac.uk
/about/main/).
O ciberespaço possibilita o
autoaprendizado, facilita a interatividade e estimula a troca de informações e
saberes, mas não garante o sucesso do aprendizado, comumente desmotivado pela
falta de estímulo. Disso decorre a importância da escola e do professor como
mediadores do conhecimento a ser construído, aliados às estratégias
pedagógicas, materiais didáticos e metodologias de ensino. Ainda assim,
particularidades por vezes desconhecidas, outrora ignoradas, fazem a diferença
quando “lincamos” educação a cibercultura. Diante disso, Lemos (2003) indica
novas possibilidades de socialização do conhecimento através de três leis da
cibercultura: lei da liberação do polo da emissão, lei da conectividade e lei
da reconfiguração.
Uma educação cibercultural
Para a educação, urge que
implementemos mudanças no ensino tradicional, secularmente institucionalizado,
reconfigurando práticas educomunicativas de acordo com o novo cenário
sociotécnico atual, frente à emergência de novas formas de comunicação
interativa (muitos para muitos) e da miríade de conteúdos informativos na
rede. Doravante, acompanhar a evolução midiática e fazer uso tanto dos antigos
quanto dos novos recursos comunicativos é um imenso desafio, congênere às
peculiaridades de cada contexto educativo (situações ambientais e
transformações da consciência coletiva em rede), obviamente, em sentido
figurado, tendo em vista que a alfabetização midiática não está disponível a
grande parte da população mundial.
Aos afortunados “nativos digitais”
equivale a realidade mencionada: um universo virtual que suporta o processo de
criação, produção e distribuição de produtos, informações e serviços; a
inteligência coletiva, o hipertexto e a inteligência artificial; as interfaces
síncronas e assíncronas de comunicação; as comunidades virtuais, a colaboração
em massa e a interatividade em tempo real, onde as pessoas estão conectadas e o
conhecimento é compartilhado (através de imagens, vídeos, textos, áudios) em
escala global (Teixeira, 2012b). A cibercultura totaliza esse contexto, símbolo
de um período da história da humanidade marcado pela comunicação eletrônica e
pelas mídias digitais, influenciando, direta ou indiretamente, a educação e os
modos de ensinar e aprender.
A cibercultura também se faz presente
na educação por meio de múltiplas linguagens, múltiplos canais de comunicação e
em temporalidades distintas. As interfaces da Web 2.0, por exemplo, permitem um
contato permanente entre escola, professores, alunos e seus pares no ambiente
virtual de ensino. Sem fronteiras para o conhecimento, os conteúdos educativos
são trabalhados interativamente na comunidade estudantil, de forma síncrona e
assíncrona, com a possibilidade de produzir e compartilhar conhecimentos
colaborativamente com qualquer outro estudante em qualquer parte do mundo.
Contudo, apesar dos evidentes
benefícios para o processo de ensino-aprendizagem, devemos repensar a
influência da internet e das novas tecnologias em nossa cultura, conscientes de
seus pontos fortes e limitações, como a falta ou a precariedade de acesso à
rede. Além disso, é fundamental avaliar a capacidade do estudante para utilizar
as tecnologias propostas como instrumento de produção de conhecimentos
transdisciplinares, e não apenas de informação, redefinindo a racionalidade comunicativa
em estratégias educacionais no ambiente virtual.
Em outras palavras, a abstenção não é
realmente uma opção para instituições de ensino, professores e gestores
educacionais, já que a introdução das TICs na educação faz parte de uma
revolução sociocultural mais ampla e profunda que está mudando a cultura do
mundo contemporâneo. Quem deseja sobreviver profissionalmente a essas mudanças
ciberculturais não tem outra opção senão adaptar-se à época em que vivemos,
marcada por novos modos de comunicação, estilos de vida, identidades,
entretenimento, interatividade às novas formas de ensinar e aprender.
A adaptação, porém, requer uma
estratégia bem definida, com base em uma clara compreensão da nova cultura
emergente, dos valores explícitos e objetivos educacionais, evitando o
instrucionismo mecanizado. Por isso, torna-se necessária uma literacia
informática prévia entre educadores e educandos, como meio de melhorar
competências, conhecimentos, atitudes e perspectivas sobre o futuro da
aprendizagem, que é cada vez mais colaborativa. Os consumidores tornam-se
produtores e os produtores tornam-se consumidores de conteúdos, bens e
serviços, em um novo modelo econômico planetário, sem restrições ou barreiras,
induzido por um processo contínuo de colaboração massiva (Tapscott e Williams,
2010).
Portanto, o conceito de cibercultura
está em permanente transformação, com muitas conotações, idealizadas
notoriamente pelas práticas tecnossociais da cultura contemporânea e de suas
novas formas de sociabilidade no universo virtual, ou seja, uma virtualização
cultural da realidade humana, fruto da migração do espaço físico para o virtual
mediado pelas TICs e regida por códigos, signos e relações sociais dentro e
fora dos espaços escolares.
A IMPORTÂNCIA DA TECNOLOGIA NO PROCESSO ENSINO -APRENDIZAGEM
ResponderExcluir